2009-04-24

Geni e o Zepelim




De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada



Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato

E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni / Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni



Um dia surgiu brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim

A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia

Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia

- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir




- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir


Essa dama era Geni / Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni




Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos


E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos



Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão


O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão


Vai com ele, vai Geni / Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar / Você vai nos redimir / Você dá pra qualquer um
Bendita Geni




Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco



Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado

E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado


Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir



Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni / Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar / Ela é boa de cuspir / Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni



Letra/música de Chico Buarque de Holanda
Imagens: Mads Greve, Otto Stupakoff, Steen Andersen, Tao Lytzen
 

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